domingo, 8 de março de 2009

Das Imperfeições



Hoje resolvi assumir todas as minhas imperfeições.
Resolvi assumir minhas cicatrizes, meus sinais,
minhas fragilidades e fatídicas ilusões;

Resolvi assumir minhas crises de rinite,
minhas cólicas menstruais.
Resolvi assumir também minhas celulites,
estrias, vasinhos e artrites
meus solitários ais.

Resolvi assumir meu tamanho G,
minha sobrancelha direita
ligeiramente indisciplinada;
meu perfil rechonchudo,
minha boca de peixe
meu pé esquelético
e ás vezes,
minha barriga inchada.

Resolvi assumir meus pneusinhos,
dobras e saliências;
meu longo e ondulado cabelo sem jeito
que incomoda tanta gente sem jeito
gente destemperada
gente ainda em construção
que faz de mim estrangeira
em meu próprio cativeiro,
morada e nação.

Resolvi assumir minha miopia
meus óculos de garrafão
Resolvi assumir tudo que a mim pertence
e que se não fosse meu
se não fossem minhas
estas lindas imperfeições
aqui não falaria um humano
em contínua evolução.

Resolvi por fim
assumir todas as minhas “imperfeições”,
todas as minhas assimetrias
minhas pálidas emoções
meu nariz arrebitado
meus outros eus em ebulição.

(Mamafrei)

sábado, 7 de março de 2009

Intrusa


Lua,
Teus olhos blefam com a vida
Soletram mortalha invertida
E espalham a cor da Intrusão.
Intrusa
intrometida
Sol da minha noite
Reflexos de minha vida
Esperança poética ardida
a provocar minha rouquidão
Ai no alto
Encontra-se
O mapa de minha mina;
Encruzilhadas,
Sinuosas armadilhas
Frutos doces de minha invenção...
(Mamafrei)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Dez pedidas



Você disse meu nome
com quem diz um triste adeus
Ficamos parados no tempo:
quem de nós primeiro morreu?
(Mamafrei)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Passagem



Por esta janela
Que ser sol haverá de entrar
E macular o ser no meu eu
Que está a vagar?

Em cada fresta dela
Um raio de luz
Haverá de entrar
E preencherá
O que em ti resta
Um eu a sondar

Quem,
Quem então
Estará à janela
A ver o cortejo dos ventos
Uivantes a rondar?

Cá,
Os sonhos fogem por ela
Lá,
O intransponível a cerca
Cá,
A escuridão da agonia
Lá,
Veredas e árvore da vida

Menino destino
Aqui ou acolá
Ele ainda haverá de me encontrar.

Vês o manto verde da terra
Além da janela
A se confundir com o verde do mar?
Lá há folhas verdes e flores amarelas
O musgo invadindo
Meu eu aqui a se acomodar.

Tem cheiro de vidas passadas
Almas sofridas
Corpo e mente a se reencontrar

Aroma de uma fatídica vida
Presente e passado
A coexistir em um mesmo lugar

Futuro inserto em um tempo ferido
À lâmina d´aurora docemente
Pela janela a passar sorrindo...
(Mamafrei)


domingo, 4 de janeiro de 2009

Ser do Mar



Ò poderoso deus do mar,
o que será que esse ser
mais uma vez está a ocultar?

De quem será esse enigmático ato
dúbia donzela...
que se abre e se fecha
Como uma suave cancela?

Que vela sua face
e a revela somente ao mar
Que emoldura seu destino
fazendo de sua janela,
porta aberta para o mar?

É a “Mulher ao espelho”
Dantes poetizada
E agora mais uma vez
Utiliza os cabelos
Como escudo de sua morada

Teu olhar distante
se funde com o horizonte
e nele insiste em se perder

O céu nubla seus pensamentos
e cai como chuva sobre suas costas
o véu do anoitecer

O que há nas encostas
das suas costas nuas?
Por que tantos véus
pra velarem os olhos da lua?

Mesmo de olhos vendados
Ela capta seu ser...
Cinza, azul e castanho
Há de ser o que ele parece ser.

Mamafrei

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tribudo à Vênus

Artista plástico: Joedson Weslley

Ó Vênus!
Estrela D´alva contínua
da manhã e vespertina
a brilhar sempre
como uma jóia em meu céu.

Estrela do Pastor,
tua luz é tão extrema
que em mim causa ardor

Deusa na terra renascida,
revela-me pela tua escrita
sereia dos lábios de mel.

Sedutora Afrodite,
tuas palavras, acredite
provocam-me estranheza

um verdadeiro escarcéu
de disse e não-disse
misteriosas lacunas
deixadas num branco papel.

Teus cabelos são como redes
a emaranhar coração de vários “Eros”
embriagando-os
com o aroma etéreo...

Ó femme fatal!
Teu olhar é tão doce e sereno
oblíquo, sinuoso;
insinuante e sensual...

Eles velam tristes belezas
dúbias certezas
de uma deusa descomunal.

Ó deusa do amor e da beleza,
tens pena dos homens
que ainda não a tens
como única e verdadeira certeza!

Deusa Citereia,
teu olhar zanago me desnuda
Poetiza o ar,
minha companheira segura!
Comparo o brilho do teu olhar com o da musa lua

Coberta por uma espessa camada
de nuvens em turbilhão
Planeta irmão da Terra
És tu, Vênus !
A atingir em cheio
e a modificar todos os corações.

(Mamafrei)

Efervescência

Artista plástico: Joedson Weslley

Um filho, uma vida!
Um sopro de vida expelido nas narinas
Verbo entrando em todo o teu ser
Minha vida!...reduplicada e estúpida vida!
Dúbio e estranho olhar do par(d)ecer
Alimento-te com este sangue
Que jorra das raízes dos mamilos meus
E acarinho-te em uma de tuas faces
Com esta arma
Esta bendita arma
Que um dia
Ainda há de me vencer
Ao Iludir-me que serás só meu

Um filho, minha cria!
Que repousa sobre meu branco peito
E descansa suavemente
Sua terna mão sobre o meu sensível leito
Dorme bichinho...
Sonha que estais sorrindo
Que estou a fazer cosquinha
Em seu obscuro umbiguinho
E que somos mais amigos
Do que parecemos ser
Somos afinal, Mãe e Filho
Dor igual a esta
Jamais iremos novamente padecer
(Mamafrei)

sábado, 22 de novembro de 2008

Também



O drama jamais vestiu tão bem
o rosto pálido da agonia.
Taxado de maduro,
Amarelo-pardo
acuado e mudo
o drama tão bem
me enfastia e desnuda.
Quem diria...
Ele tão bem me deixa muda!
(Mamafrei)

Contra o tempo



O mundo tem pressa
tem sede e tem fome
O mundo tem ânsia
de chegar depois
mas algo me diz
algo me diz
que ele pode esperar
que ele pode esperar
por nós dois

(Mamafrei)

Inside


E viva à nossa negritude!
nossos avessos
negros segredos
Viva aos nossos obscuros!
traços de negros
quartos escuros
E viva a toda a nossa gente!
mente terrena
gente pequena
ente noturno
Viva ao nosso gélido medo!
que abafa
nos deixa mudos
translúcidos
(Mamafrei)